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A IA escreveu os **critérios de aceitação**. Ninguém leu. E o bug chegou mesmo assim em produção.
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A IA escreveu os critérios de aceitação. Ninguém leu. E o bug chegou mesmo assim em produção.

A IA pode gerar critérios de aceitação em segundos. O problema é que ninguém definiu o que "aprovado" significa. Quando ninguém define isso, a IA inventa. E inventa com muita confiança.

Macareno5 min de leitura

Existe uma sensação específica nas salas de projeto quando alguém pergunta "mas o que exatamente precisamos testar?". É silêncio. Não o silêncio de quem está pensando, mas o silêncio de quem não tem resposta e esperava que outra pessoa tivesse. O tester olha para o PO. O PO olha para o dev. O dev olha para o documento de requisitos que tem três versões e nenhuma é a final.

Por anos, esse silêncio foi o sintoma mais honesto de um processo com problemas. Ele expunha que ninguém havia definido o que significava "aprovado".

A IA resolveu esse problema. Não respondendo à pergunta. Preenchendo o silêncio.

O silêncio que virou documento

Quando você cola uma especificação no Copilot e pede "gere critérios de aceitação para esse fluxo", a resposta chega em segundos. Formatada. Numerada. Com cenários positivos e negativos. Com linguagem técnica precisa.

Parece um entregável profissional. E às vezes é.

O problema é quando não é. Quando a especificação que você colou era ambígua, incompleta ou simplesmente desatualizada, a IA não te avisa. Ela preenche os buracos com suposições que fazem sentido do ponto de vista do código, mas não do ponto de vista do negócio.

A IA não te diz o que você não sabe perguntar. Ela te dá uma resposta que parece completa o suficiente para você não perguntar mais.

O tester lê os critérios, acha que estão bons, executa os testes, tudo passa. O fluxo vai para produção. E o bug aparece não porque o código estava errado. Mas porque o critério que deveria capturá-lo nunca existiu.

O que a IA não pode inventar

Critérios de aceitação têm dois componentes. Um técnico: o que o sistema faz. Um de negócio: o que o sistema precisa fazer para essa pessoa, nesse contexto, nessa empresa.

O componente técnico a IA domina bem. Dado um fluxo do Power Automate, ela consegue identificar caminhos, condições e exceções esperadas.

O componente de negócio não está no código. Está na cabeça da gerente de RH que vai usar esse fluxo toda segunda-feira. Está no comportamento do usuário que vai preencher o formulário no celular com conexão ruim. Está na exceção que acontece uma vez por trimestre e que o cliente considera crítica, mas ninguém documentou.

Esse conhecimento não vive em nenhum repositório que a IA pode ler.

Então quando você pede para a IA gerar critérios sem antes extrair esse conhecimento das pessoas certas, ela gera o que pode. O que ela tem. E entrega com a mesma confiança de quando o que ela tem é suficiente.

Aprovado pelo sistema que não entende o processo

Em ambientes Microsoft, o problema tem uma camada extra. Power Automate, Copilot Studio, SharePoint Forms: são ferramentas que democratizaram a criação de processos digitais. Qualquer pessoa com uma licença M365 pode montar um fluxo.

E pode testar esse fluxo com a ajuda do Copilot.

O que ninguém viu chegando: quando quem criou o fluxo é quem pediu para a IA gerar os critérios de teste, os pontos cegos se multiplicam. A IA aprende com o que o criador fornece. Se o criador não enxergou um edge case, a IA também não vai enxergar.

O resultado é um ciclo fechado que se autoconfirma. O fluxo passou nos testes. Os testes foram gerados pelo mesmo sistema que gerou o fluxo. Ninguém de fora olhou com os olhos de quem vai usar isso em produção.

O que fazer antes de pedir para a IA escrever qualquer coisa

A IA é uma ferramenta excelente para documentar critérios que alguém já entende. O problema começa quando ela é usada para substituir o processo de entender.

Antes de qualquer geração de critérios com Copilot ou qualquer outro modelo, algumas perguntas precisam ter resposta em linguagem humana, de preferência por escrito:

  • Quem vai usar esse processo e em que condição?
  • O que significa "funcionou" para essa pessoa?
  • Quais são os cenários que não podem falhar, mesmo que raramente aconteçam?
  • O que o sistema não deve fazer, mesmo que tecnicamente possa?

Com essas respostas, a IA se torna genuinamente útil. Ela transforma esse entendimento em critérios estruturados, cobre variações que você não pensou, e acelera o que antes levava horas.

Sem essas respostas, ela preenche o silêncio. E o silêncio, como sempre, tem um custo.

O ponto

A pergunta não é se a sua equipe usa IA para QA. É se a sua equipe sabe o que está testando antes de pedir para a IA escrever o teste.

Se a resposta for "mais ou menos", você não tem um problema de ferramentas. Você tem o mesmo problema de sempre, só que agora ele está muito bem documentado.

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